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Demerval Moreno Every Blog |
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COM UMA ASA SÓ...
O sol já está alto, nuvens em flocos deslizam brisa abaixo, vento simples e leve bate em meu rosto como um carinho de Deus num pássaro que amanheceu sozinho, sobre um galho sem folhas, que insiste em se manter ligado à arvore. Resta agradecer. Olhar a vida deste ponto do tempo, loge do chão/longe do cume, é um privilégio de poucos. Uma asa quebrada é sinal de liberdade usufruida, da ousadia de ontem, da tentativa louca, da ação contundente. No mínimo, de um vôo mais arriscado. Não estou podendo voar agora, nesse instante. Preciso curar a asa ferida e aproveitar a beleza de uma manhã com mais escrúpulo. A solidão está em falta nesses dias irriquietos, barulhentos e eu a tenho só pra mim. Quando o sol voltar do oriente, quando fizer sua volta monotonamente espetacular, fazendo dia da noite de hoje, já poderei fazer um loop, um rodopio no ar, planar numa térmica, feito um Fernão Capelo Gaivota.
Escrito por dmoreno às 08h54
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O SUSTO
Com o Estados Unidos vendendo o medo para todo o mundo; com o Oriente Médio sempre desorientado; com o PT todo enrolado com as Farcs, não foi incomum acordar assim, assustado. Teria sido um tiro, o estampido que ouvi na minha rua? Havia alguém no telhado? Quem está rondando minha fortaleza? Que vulto foi aquele que as câmeras detectaram sobre o muro dos fundos da propriedade? Não poderia acordar se não espantado, depois de uma noite em que as coisas apenas anunciaram acontecer. Não ouvi falar da vítima do tiro ou da bala perdida que dispararam. O que soube é que eram crianças brincando com bombinha juninas em nossa rua pouco movimentada. No telhado era apenas o Lanoso, o bichano da minha vizinha, andando sobre o zinco da calha. Ao redor da nossa casa apenas as amiguinhas de minha filhota correndo afoitas atrás da galinha estressada com crianças tão levadas. A mancha negra em meio a noite, registrada pelo zoom do meu olhar, era apenas o primo preto do Lanoso em busca de uma ratazana ou de uma namorada para uma noite que só era o prenuncio de um terror em minha cabeça. O que me acordou, feito um tapa no rosto, me despertando para essa realidade tão cruel da cidade violenta, foi o beijo carinhoso de meu filho, que só deseja em seu coração pré-adolescente, outras noites na segurança da minha proteção. Um beijo apenas! Que também me assusta, por já não ser comum.
Escrito por dmoreno às 08h34
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CARTAS
Passei um domingo me deixando levar pela vida, que bem brisa leve, me carregou feito uma pena, de um lado para o outro. Postei o texto abaixo e agora, enquanto o Ciro Gomes fala na televisão, eu acabo de ler as cartas de Pero Vaz de Caminha e a do cacique Seathl para o grande chefe branco, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce. Quanta coisa mudou nas terras mencionadas. Eu mesmo quero voltar para uma tribo. Desejo voltar para o mato e lá vou construir uma casa de tijolos aparentes, com uma varanda linda; vou fazer um quarto hermeticamente fechado para me proteger dos insetos, com ar-condicionado e um frigobar cheio de coca-cola; quero um chuveiro elétrico para condicionar temperaturas ao lugar e um fogão a gás ou microondas para fazer pipoca no final de semana, quando vamos assistir os ultimos lançamentos em dvd no meu monitor 29 polegadas. Faço questão também de que minha rua seja de bloquete e com esgoto e que seja bem tranquila, para as crianças poderem brincar de bicicleta e empinar pipa lá na frente da casa. Vou embora o quanto antes. Pois não suporto mais o concreto frio e duro da cidade moderna, onde ninguém tem mais contato com a natureza; onde todos vivem enclausurados e hipinotisados pelos Faustos Silvas e Gugus da vida. Ah! Não abro mão do meu computador, com internet via rádio, para blogar e bater papo com os amigos, que certamente aparecerão de vez em vez lá pelo shopping da tribo construido pelo ultimo presidente da Funai, que foi demitido por razões óbvias...
Escrito por dmoreno às 19h55
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Fases...!?$@~&

Amanheci assim, meio jururu, com aquele jeito bem borocoxô de ser. Fui até o quintal e tiramos (minha pássara e eu) um cacho de bananas da casca verde que já estava amadurecendo. Pude, então, observar que na vida tudo é assim mesmo. Alguns amadurecem mais cedo. Outros levam tempo. Isso não quer dizer que sejamos todos frutas, não! Somos tudo. Quando águia, voei alto e encarei o sol. Vi de cima as possibilidades; Quando urubu, tive que me contentar com os restos; já colibri, me deliciei de flores, nectar, parei no ar e na velocidade de um instante parti para outras paixões. Neste domingo estou invertebrado, caminhando lento, sorrateiro e sempre alerta, sobre galhos fracos e possibilidades ínfimas. Hoje estou lagarta, feia e bela; perigosa e tímida; venenosa e calma. Hoje matura em mim o amanhã, gera-se em mim as asas e a beleza e a livre sensação de que o casulo é tempo mínimo, momento de encubação efémero e necessário, como um minuto de silêncio em meio ao caos.
Escrito por dmoreno às 11h14
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